Impostômetro

31 de outubro de 2013

Caravana do Apodi: Moradores do Vale do Açu em risco por causa de barragem

A primeira visita da Rota Padre Pedro na Caravana Agroecológica e Cultural da Chapada do Apodi ocorreu na manhã da última quarta-feira (23) no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia, do Rio Grande do Norte (IFRN), no município de Ipanguaçu. Desde março de 2012 a instituição conta com um curso superior de agroecologia, após alguns anos no ensino médio, o único nos institutos federais do estado. “Agroecologia não é utopia, é justiça!”, alertava a faixa exposta pelos alunos que receberam a caravana no local. A atividade encerrou com uma apresentação teatral de um grupo de estudantes representando o conflito da terra e a exploração do trabalho.
padre pedro

De acordo Evandro Firmino, diretor geral do campus, a filosofia da agroecologia é algo muito bonito e que deve vir para ficar. Mas precisamos avançar muito mais não só nos movimentos e ampliar as vozes da agroecologia, complementou.
“Avançar também nas pesquisas, pois temos que produzir muito e com qualidade para termos condições de reduzir a fome do mundo. A agroecologia aparece tardiamente mas veio para ficar, sentimos a necessidade da movimentação para dar sustentabilidade a isso. Por outro lado, não vemos recursos para pesquisas para a redução dos agrotóxicos e pesticidas”, observou.
Engenheiro agrônomo que serviu ao agronegócio durante 21 dos seus 28 anos de trabalho, o professor Júlio Justino conta que teve de se converter ao passar no edital para o curso de agroecologia no IFRN. Segundo ele, esse processo não é fácil até porque a universidade forma engenheiros agrônomos no modelo convencional.
“Temos várias turmas de agroecologia que terminaram aqui e mostrando resultados na região. É muito importante esse momento com uma caravana desse nível, multidisciplinar, delegações de todo o país. Tudo isso justifica o nosso curso de agroecologia na região para se integrar ao movimento. É uma região rica com povo pobre, com recursos naturais, solo fértil, clima favorável, mais vários fatores, com mão de obra barata atraindo as empresas do agronegócio. A terra está concentrada nas mãos de poucos, e pequenos proprietários se tornam assalariados para as empresas”, afirmou.
O professor listou uma série de empresas que se instalaram na região e faliram, de modo a demonstrar a insustentabilidade dos empreendimentos no longo prazo. Ele falou ainda sobre o Distrito de Irrigação do Baixo Açu (Diba), que foi projetado com uma capacidade instalada de 6 mil hectares e começou a funcionar em 1992 com um projeto piloto de 600 hectares chegando a funcionar 3 mil hectares quando a partir daí a terra começou a salinizar e diminuir. Problemas de assessoria técnica, de gestão, dívidas em bancos, baixa capacidade de aporte de recursos, foram alguns dos fatores apontados pelo estudioso.
Monocultura da banana e as expropriações
Poucos agricultores da comunidade que foi cercada pelos bananais da empresa Del Monte resistiram à desapropriação, também no município, após a instalação da barragem. Na visita a Francisco Milton Soares, agricultor aposentado, ele contou que depois que a empresa chegou na região tudo mudou na vida dos moradores. Se antes tinham terra arrendada e compradores fixos para seus produtos em toda sexta-feira, hoje quase não têm terra para plantar e criar seus bichos, além das enchentes provocadas pelas mudanças nos rios.   
“Antes da barragem plantávamos na beira do rio, tiveram que desmatar as carnaúbas. O dono pediu para todos saírem para pulverizar,  deram uma casinha lá perto das cerâmicas, e quem quis ficar que nem eu eles passavam em cima. Hoje eles mudaram o sistema. Antes tinha água doce, hoje salgou e só serve pros bichos. Cheguei a ter 190 hectares e hoje só tenho minha casa”, afirmou.
Os agricultores trabalhavam muito no carnaúbal até comprarem suas terras, lembrou Dona Preta, vizinha na mesma comunidade. Ela acredita que daqui a alguns anos sua família precisará comprar água, porque as cisternas estão secando.
“Quando começou essa firma que envenenava a gente não podia comer peixe porque ele não assava nem cozinhava, ficava com o couro duro. Hoje o peixe é bom, ele ou nós nos acostumamos, talvez porque tenha menos veneno. Teve gente que trabalhava lá e ficou doente. Os caras que compraram chegavam e falavam: eu paguei vou soltar cem bois, se vocês quiserem vocês morem com eles. Nós perdemos porque não tinha quem falasse pela a gente. Os donos moravam no Rio de Janeiro”, destacou.
São muitos os relatos de pessoas intoxicadas e doentes por conta dos agrotóxicos na região, reforçou Julio Justino, professor de agroeocologia da IFRN. Os políticos, complementou, dizem que essas empresas geram empregos e impostos.
“O corretor comprava a terra de um pequeno, e quando um resistia pulava deixando ele isolado. O preço máximo dos resistentes era 8 mil por hectare, mas teve gente  que vendeu por até 3 mil. Em 2008 houve uma enchente e parou as compras, algumas dessas terras hoje são arrendadas para o pasto”, disse.
Os lotes nessa região são divididos entre os agricultores (8 hectares), técnicos (16) e empresários (50 a 100). A produtividade média de banana gira em torno de 13 toneladas em cada hectare por ano. E o manejo da banana é realizado de forma inadequada, se reaproveitas suas folhas para adubação da terra. Geralmente o empresário não mora no lote, ao contrário do agricultor familiar. Muitos terrenos já estão degradados nesses 20 anos de projeto e outras áreas em processo avançado de improdutividade do solo. Os camponeses ficam sem condições para pagar a energia e comprar os venenos, e por não terem o título do terreno não podem fazer empréstimos nos bancos. E a associação dos irrigadores tem hegemonia dos empresários e técnicos, dificultando a situação dos agricultores que ainda pagam taxas do DIBA e estradas, que são de responsabilidade do DNOCS.
De acordo com Gerusa Soares Costa, pedagoga e irmã de seu Francisco, além do rio Pataxó não ter leito mais os drenos da Del Monte mandam a sujeira para a comunidade.  Por conta dessas modificações com qualquer chuva alaga sua casa, sendo que antes era só no inverno.
“Não temos mais como se preparar para as enchentes. Recomendo a todos que estão em lutas parecidas e têm sua propriedade que não vendam para quem vem de outro estado ou país. Esse povo vem sem pena e piedade. Não temos mais nosso espaço, não temos mais acesso de ir e vir, nem podemos mais criar animais. As pessoas que cresceram com a gente foram embora e estamos limitado”, disse.  
Em seguida visitamos algumas terras de agricultores e o Distrito Irrigado do Baixo Açu (Diba). O professor Justino explicou que a evaporação intensa provocada pelo calor faz com que os sais fiquem na terra, então ao mostrar os drenos do projeto disse que eles são recomendáveis mas alertou que hipótese alguma os resíduos podem ser despejados nos rios. Quando chove transborda poluindo o lençol freático e degradando o solo, sendo também um risco para os animais no entorno.  
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