Impostômetro

5 de junho de 2014

VIVA A AGROECOLOGIA!


Mariana Ciavatta Pantoja

De Petrolina, avistando Juazeiro, separadas pelas verdes águas do rio São Francisco, o Velho Chico chamado!
Estive em Juazeiro, semi-árido baiano, fronteira com Petrolina e o também semi-árido pernambucano, tudo isso às margens do rio São Francisco - que tem as águas, não sabia, da cor verde claro! Fui participar do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que ocorreu entre os dias 16 e 19 de maio, nas instalações da Universidade Federal do Vale do São Francisco.

Mais de duas mil pessoas estiveram ali reunidas, metade delas mulheres e, do total, em torno de 70% de agricultores e agricultoras de diversos pontos do país, de norte a sul, de leste a oeste, de assentamentos do MST, de quilombos, reservas extrativistas, terras indígenas, comunidades de colonos do sul, agricultores periurbanos e urbanos (não conhecia a "agricultura urbana"), do semi-árido nordestino, caiçaras, gerazeiros e tantos outros grupos que tem nas práticas agrícolas familiares e de base agroecológica um importante componente da sua identidade, territorialidade e modo de vida.

"Agricultura de base agroecológica". Esta expresssão era muito ouvida. Leiga nesta temática técnica, fui aprendendo ao ouvir, ver e também participar, o que pode ser esta tal de "agroecologia".

A primeira coisa que chamava atenção foi toda aquela grande movimentação de gente animada, de todas as idades, etnias, sotaques e modos, vindas de todo o Brasil, todos num clima de civilidade e gentileza recíprocas. Isto tornava de cara o evento bastante agradável e convidativo. A agroecologia teria a ver, conclui, com relações humanas mais humanas, digamos assim. A agroecologia é humanitária, quase franciscana, se me permitem: para todos sentirem-se bem e serem beneficiados, seres humanos e não humanos. A celebração final, nas margens do rio, louvando-o, foi um exemplo disso.

O III ENA foi encerrado com uma celebração místico-religiosa ecumênica às margens do rio, num belo entardecer...
Agroecologia também é algo imaterial: encantamento, espiritualidade, fé e força da natureza. Na tarde das "oficinas auto-gestionadas", uma das atividades do evento, por exemplo, ocorreu uma com a temática "Poesia popular e literatura de cordel", e que definia como seu objetivo sensibilizar os participantes para a "importância da poesia popular para o conhecimento agroecológico". Talvez, para os que dela tomaram parte, um dos momentos mais significativos do evento: ali ocorreram encontros de verdade, cantou-se, recitou-se poesias e cordéis, histórias foram contadas, lágrimas e risos. Ali a agroecologia virou cultura, e as fronteiras entre o simbólico e o natural mesclaram-se com muita arte. Como disse o artista Farinhada, usando uma imagem agrícola para falar da cultura: "a cultura, ela brota, onde tem gente ela vai brotar".

Coordenada por Caio Meneses (de frente, no centro da foto), do Centro Sabiá (PE), a oficina ocorreu na tarde do dia 18 e reuniu participantes de estados diversos, com formações também diversas, de artistas (como Farinhada, no canto direito da foto) à professores universitários, como a autora deste texto...
Agroecologia também é interface de conhecimentos, tradicionais e científicos. E também é interdisciplinar. Em todos os dias do evento, funcionou a Feira de Saberes e Sabores, com barracas de todos os estados e experiências, que ali apresentavam seus materiais (folders, vídeos, livros, cartilhas etc) e produtos agroecológicos, em geral comestíveis, mas não só. Havia também muito artesanato. E havia sementes e mudas para serem trocadas, bem ao gosto do conhecimento tradicional, que se reproduz na base da troca de ideias, experimentos, sementes e mudas, sem a mediação monetária. Aliás, o tema das sementes - símbolos da vida - esteve presente durante todo o evento em falas, discussões e ainda nas mandalas que, penduradas, enfeitavam a tenda principal do evento.

Na tenda principal, colorida e arejada, cabíamos todos e todas. Sobre as nossas cabeças, mandalas de sementes. Esta foto retrata um momento da plenária final, onde a carta do III ENA foi entregue e lida para as autoridades municipais, estaduais e federais presentes, entre elas o Ministro Gilberto Carvalho.
Contra os trangênicos, agrotóxicos e agronegócio, a agroecologia afirma e defende as sementes crioulas, os bioprodutos e biotecnologias adaptadas para e pela agricultura familiar. Entre os Seminários Temáticos que ocorreram, houve um bem interessante chamado "Sementes e Trangênicos" no qual a grande questão tratada era a autonomia das famílias de agricultores na produção de suas próprias sementes. Como produzí-las, acondicioná-las e fazer com que cheguem aos produtores, escapando da dependência das sementes compradas e/ou geneticamente modificadas? Quais as técnicas disponíveis e acessíveis? Como evitar a contaminação das sementes crioulas e a perda de diversidade genética e cultural? Fiquei sabendo que as sementes de hortaliças são um caso muito especial, em geral um gargalo para os produtores. Foi também apresentado neste Seminário o bem-sucedido caso da parceria da Embrapa com os Krahô, que recuperaram variedades tradicionais de milho recorrendo aos bancos de sementes mantidos pela primeira. Por outro lado, foi denunciado em mais de um momento do evento o boicote e perseguição que, dentro da própria instituição, sofrem os pesquisadores interessados em projetos e parcerias com agricultores tradicionais, e não em pesquisas de cunho empresarial.

Momento da passeata. Observe-se, além da jovem ao centro, a bandeira do MST e, à esquerda, dois índios com seus cocares.
 O ENA também foi marcado pela presença marcante das mulheres. "Sem feminismo não há agroecologia" foi talvez uma das palavras-de-ordem mais dita; as mulheres estavam todo momento no microfone, coordenando atividades e conduzindo a passeata do dia 18. Se são desse jeito as mulheres da agroecologia, os homens também têm que ser muito especiais! Essa vivência paritária, em ato, foi algo de que gostei bastante, e pareceu funcionar bastante bem.

Outro momento da passeata. Esta bolsa de pano, tipo mochila, e o chapéu de palha integravam os materiais distribuiídos aos inscritos no III ENA.
Outra coisa que funcionou muito bem foi a metodologia do evento. Desde as primeiras atividades, com as apresentações dos "territórios" onde foram realizadas as "caravanas agroecológicas" que prepararam o ENA, passando pelos "seminários temáticos" - tendo pelo meio a Feira de Saberes e Sabores e as "oficinas auto-gestionadas" - até chegar na "plenária final" podia-se perceber uma articulação entre todos os momentos. A conversa ia sendo sempre atualizada e enriquecida pelo que vinha das atividades precedentes, e a Carta do III ENA sem dúvida expressa o que foi durante o evento (e antes dele, nas caravanas) debatido.

Ainda com relação à metodologia, na sistematização das discussões dos "territórios" e dos "seminários temáticos", havia uma grande folha em branco e alguém com habilidades de desenhista ia ali registrando as conversas, reunindo desenhos e frases que representavam o que estava sendo tratado pelo coletivo. Ao final, um belo painel colorido, expressivo, cheio de símbolos, sintetizando o trabalho, estava ali, acessível a todos, tanto aqueles que vem da cultura escrita (como nós) quanto aqueles que têm mais dificuldade com ela. Descuidadamente não fotografei nenhum desses painéis, que eram transportados para a grande tenda e ficavam ali para todos e todas verem. Eficiência, beleza e democracia - isto também é agroecologia.

Pessoas, cores, músicas, chapéus, bandeiras, cartazes, bonecos gigantes, um belo e ventilado dia de sol marcaram a passeata.
Pra fechar, um pouco mais da passeata, que saiu da sede do evento e rumou para a ponte que liga Juazeiro e Petrolina, sobre o rio São Francisco. A ponte teve seu trânsito de carros, motos e ônibus fechada por quase uma hora, acho. E ali cantou-se muito, palavras-de-ordem foram bradadas, mártires lembrados, faixas penduradas sobre o rio. Quando o clima pareceu esquentar com os motoristas, o bom-humor e a organização dos manifestantes segurou a onda. 

Era bem jovem quando o Padre Josimo foi assassinado no Pará devido a lutas por terra. A Reforma Agrária era um lema forte no III ENA.
Ao final, a passeata rumou pra "casa", pro "planeta ENA", como apelidei intimamente toda aquela convivência no evento: um tempo e espaço diferenciados, com relações e trocas entre afins e, no horizonte, por que não, uma revolução agroecológica! "Cuidar da Terra, Alimentar a Saúde e Cultivar o Futuro" - este foi o mote oficial do III ENA.

Chico Mendes estava também presente no III ENA, como mostra a camiseta, e aquele xote muito conhecido por aqui: "não posso respirar, não posso mais nadar (?), a terra está morrendo, não dá mais pra plantar..."
A Carta do III ENA, entregue as autoridades na plenária final do dia 19, merece ser lida (leia aqui). Espelha as discussões realizadas, e toca nos pontos centrais para a construção de uma sociedade bem diferente da que temos aí e que nos é oferecida pelas forças hegemônicas. O III ENA foi, para ser clara, um momento político forte e importante, e a Carta final não alivia nada, não faz concessões, muito pelo contrário, trata do que deve ser tratado. Leiam.

Autora da matéria Mariana Ciavatta Pantoja, republicado no blog 100% por Kleiton Xavier de Oliveira Ormonde
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